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O porque da emigração de atletas de alto rendimento: o Voleibol brasileiro no contexto mundial.

Desde a década de 1980, o Vôlei Brasileiro adquiriu o status de melhor do mundo.
Nossos atletas venceram e ganharam tudo o que seria possível conquistar: medalhas de ouro olímpicas; circuitos mundiais; grand-prix; campeonatos mundiais e regionais.
Esta é uma ótima razão para nos sentirmos orgulhosos de nossas equipes, masculinas e femininas, coordenadas competitivamente pela CBV.
À primeira vista, estas conquistas e glórias aparentam ter somente pontos positivos. O ego e o orgulho de ser brasileiro aumentam. O Brasil passa a ter uma imagem internacional melhor no mundo do esporte e é referência, líder, no Vôlei. Nossos atletas se tornam famosos e são requisitados para mais jogos, eventos, marketing de produtos e serviços, de tal forma que a renda conjunta deles, salários no esporte mais propaganda cresce.
Contudo, este lado sadio, positivo, também esconde os seus problemas e contrapontos. Por conta do próprio sucesso, o Vôlei precisa enfrentar novos desafios, o que pede novas formas de pensar, de agir e de ver o Vôlei. Isto, pela comunidade voleibolística em geral.
O fato é que o sucesso traz consigo vantagens e desvantagens. E entre estas, merece atenção o fato de que com tantas taças e vitórias na mão, os nossos melhores atletas voleibolísticos tornaram-se o objeto da cobiça esportiva mundial.
Atrair para o seu país uma estrela de primeira grandeza, vinda do Vôlei brasileiro, para atuar num time de ponta, virou uma meta estratégica para inúmeros clubes no mundo.

A partida de jogadores ao exterior: um fenômeno localizado ou efeito de força maior.

Num ponto, os analistas estão de acordo: o principal fator que determina o fluxo migratório é o diferencial entre renda local e no exterior.
Os atletas querem se realizar profissionalmente na vida e olham para o fluxo de rendimentos presente e futuro que recebem e receberão tanto em seu país de origem, quantos no exterior.
Quanto maior é esta diferença de renda, com pagamentos maiores nos paises desenvolvidos, maior é a probabilidade de um brasileiro emigrar, ir para fora.
Mas isto não garante renda permanente, nem sucesso nas quadras estrangeiras.
Criou-se de 1990 em diante o mercado de trabalho globalizado dos supertalentosos.  Tiger Woods, o taco de ouro do golfe, nascido nos EUA,  fica no país onde nasceu. É óbvio, pois entre salários estimados em US$ 7 milhões ao ano e gordos contratos publicitários e de marketing, que exploram sua figura, de mais US$ 93 milhões, num total de US$ 100 milhões, destaca-se o topo do rendimento e vale a pena ficar onde se paga melhor.
Os empresários de superatletas trabalham não apenas sobre a capacitação esportiva e o rendimento de seus jogadores. Eles buscam  e destacam-se a beleza, a simpatia, a habilidade de falar bem, a empatia com o público, a credibilidade, a imagem ética e bem comportada, a capacidade de fazer de si notícia e a flexibilidade nos movimentos nacionais e internacionais.
O que justifica salários e contratos empresariais maiores aos atletas é a capacidade de repercutir campeonatos e jogos, assim como produtos e serviços, em rede local, nacional e mundial, num movimento de rendas de merchandising aumentado pela criação recente, de 1.990 para nossos dias, de novos canais de distribuição, como televisão globalizada, canais abertos e Internet.
No vôlei, este fenômeno global também sucede. Não há como pará-lo. Ele faz parte da lógica dos novos negócios mundiais. Por isto, um jogador sensacional como Giba pode fechar na Rússia um contrato estimado em US$ 1,1 milhão, e ele passa a ser um embaixador excepcional do saber, do talento e do diferencial esportivo e voleibolístico criado por ele mesmo, pelo Brasil e a CBV.

A emigração de atletas brasileiros num contexto maior.

A partida ao exterior de jogadores de alto rendimento preocupa naturalmente o país, os dirigentes esportivos, os torcedores, os espectadores midiáticos e os empresários locais.
Perder um atleta que foi educado e treinado durante longos anos no Brasil, para o exterior, representa a perda de investimento que se fez em capital humano, um talento a menos que deixa de jogar nas quadras e que deixa de interagir com os pares.
Por outro lado, o atleta que vai ao exterior melhora a sua remuneração; ganha em divisas, como euro; treina numa infra-estrutura esportiva de país desenvolvido; mora melhor e sente os benefícios se estiver em cidade rica do progresso, da segurança e da boa saúde pública.
Para o país, os resultados da partida de superatletas ao exterior são ambíguos. Os levantamentos de dados de renda, tributários e de remessas são muito imprecisos. Estima-se que boa parte da renda ganha no exterior fique lá fora, dirigido ao consumo de bens e serviços, sendo 60% do orçamento familiar dos jogadores estrangeiros nos EUA e na Europa, destinado à compra de eletrodomésticos, móveis e carros; 31% de destine a impostos e 9% apenas se dirija à compra de imóveis e para fazer um pé de meia ao voltar ao Brasil (Beatriz Padilha, CIES).
Estima-se que no total anual, os emigrantes brasileiros remetam US$ 6 bilhões por ano (Panorama Brasil).   

Brasil: população e migração no contexto do Vôlei.

A fuga de talentos é notória no campo da ciência e tecnologia. Entre cientistas e pesquisadores,  10.000,  saíram do Brasil nos anos 80.
No caso específico do Voleibol, o que ocorre é um fenômeno específico de transumância. Este é um tipo bem particular de fluxo migratório. A transumância é um tipo de migração pendular, temporária e reversível, de ida e volta. Corresponde ao deslocamento de atletas e profissionais do ramo esportivo, por um determinado período (anos de vida útil) ou temporada de contrato e após a atividade (atuar num clube), voltam ao país ou área de origem.

Fatores que determinam e explicam a emigração.

Usualmente, estudam-se os fatores explicativos da emigração mediante “push and pull factors”. O push motiva a saída, o pull motiva a chegada lá no exterior.
São numerosos os fatores que explicam a emigração de pessoas e de atletas aos paises desenvolvidos. Inexistem estudos apurados, detalhados e numéricos sobre o assunto. Contudo, à luz da literatura existente no mundo institucional e acadêmico e das entrevistas com atletas, pode-se enumerar:

  • A melhor remuneração no exterior. O diferencial de rendas entre o Brasil e os paises desenvolvidos é muito significativo, logo os salários mais altos e os contratos de merchandizing de produtos e serviços são determinantes para explicar a partida. A emigração é feita numa base individual  para a aquisição de renda. A esta se chama de emigração por razões econômicas e de formação de renda pessoal no exterior;
  • Altas taxas de desemprego e de subemprego no país de origem, estruturais e que possuem pequena mobilidade para baixo. Nos anos 2.000 / 2.007 o Brasil amargou taxas de desemprego próximas a 8,5% e até 10% anuais. No setor esportivo, de lazer, a sensibilidade ao desemprego é maior, o que explica a busca de países onde o emprego seja maior, mais estável e formal;
  • Um país maior e mais rico pode dispor de um mercado esportivo maior que o do país de origem do atleta. A oferta de oportunidades, quantitativa e qualitativamente, pode ser maior e isso exerce uma atração extra;
  • O jus-sanguini, ou prevalência da ancestralidade e sanguineidade igual, permite a obtenção mais rápida de passaportes e de mudança de cidadania.

Os perigos da emigração precipitada, mal preparada e individual. A que ficar atento  e as políticas migratórias dos países ricos.

Políticas e movimentos migratórios internacionais continuam sendo centralizados nos eixos do poder soberano das nações.
Por ser este um assunto tinhoso, complicado e delicado, nenhum país o resolve sozinho, nem é capaz de fazê-lo.
Os países ricos se confrontam com uma realidade: há mais candidatos à imigração, do que emigrantes locais ou empregos e oportunidades de emprego convenientes para os candidatos a chegar ou recém chegados.
Por estes motivos, quem pensar em emigrar, seja como atleta, seja como cidadão, deverá pensar bem na sua decisão.
Entre os assuntos a serem avaliados, destacam-se os que seguem.

Para quem gosta de uma leitura extra, sobre a qual também se assentou este artigo e pesquisa, vala a pena ler a Edição longa, que está no site da CBV, clique www.cbv.com.br e entre em Os 12 +.
Última atualização em 11 de julho de 2008.

Autoria,

Dr. Ary Graça Filho - Presidente da Confederação Brasileira de Voleibol

Professor Istvan Kasznar – Ph.D
Especialista em Economia do Esporte.
10/07/2008

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